Pobreza ou desenvolvimento
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“Penso que estamos cegos
Cegos que veem
Cegos que vendo,
Não veem”

José Saramago

A pobreza em Portugal mais do que uma realidade conjuntural ou marginal, assume características de um problema extenso e estrutural.
Segundo Bruto da Costa, cerca de 650 mil pessoas estão persistentemente em situação de pobreza. Os dados que conhecemos apontam para a existência de dois milhões de cidadãos em risco de pobreza.

As causas são múltiplas e variadas, mas o que mais nos surpreende é que 30% da população em risco de pobreza tem como principal rendimento, o trabalho.

O (re)conhecimento de que a pobreza não é uma fatalidade, mas tem causas estruturais e objetivos que assentam na sociedade, na forma como está organizada e nos sistemas que a constituem, exige tomar medidas, elas próprias estruturais que vão às causas que provocam o problema e que contribuam para a construção de uma sociedade mais coesa, social, económica, geracional e territorialmente.

A EAPN Portugal não podia ignorar as dificuldades de muitos dos nossos concidadãos atingidos por situações de pobreza e em associação com outras organizações e pessoas lançou e pôs à discussão pública e dos próprios partidos com representação parlamentar, uma proposta que denominou “Estratégia Nacional para a Erradicação da Pobreza” que visa exatamente o objetivo que expressa e que acredita ser possível.

Sabemos que a cultura dominante e a consciência social dos cidadãos são importantes no sentido de se criar um clima social favorável à luta contra pobreza, mas a responsabilidade maior cabe aos decisores e a todos os que, tendo o poder democrático, conduzem aos destinos do país.

Na verdade é o Estado, o principal garante e defensor da equidade, da igualdade de oportunidades, da justiça social e da dignidade humana, que fundam o modelo de sociedade democrática em que vivemos e cujos princípios estão bem plasmados na nossa Constituição da República.

São eloquentes e oportunas as palavras do Papa Francisco na sua Encíclica Evangélica Gaudium: “O cuidado e a promoção do bem comum da sociedade, pertence ao Estado. Este, com base nos princípios da subsidiariedade e solidariedade,- e com um grande esforço de diálogo social e político - desempenha um papel que não pode ser delegado, na busca do desenvolvimento integral da pessoa e do bem estra individual e coletivo.”

A mensagem é direta e aponta o caminho . O primeiro responsável pelo bem comum é o Estado. Os princípios da subsidiariedade e solidariedade devem presidir ao “diálogo” isto é à colaboração e partilha com outras entidade na construção do bem comum, “na busca do desenvolvimento integral da pessoa.”
Tal significa que não é lutar contra as causas da pobreza medidas avulsas, casuísticas de pendor assistencialista, porque não enquadradas numa perspetiva de justiça social, de desenvolvimento integral da pessoa, ou de mudança dos sistemas sociais e económicos que estão na sua origem.

Não é lutar contra as causas da pobreza prestar serviços ou distribuir bens, necessários certamente , mas de caráter imediato, sem preocupações no desenvolvimento integral da pessoa, nomeadamente ao nível das competências e capacidades sociais  ou mesmo na criação de novas oportunidades de inclusão, e sobretudo sem o envolvimento dos próprios e com a sua participação ativa.

Sabemos que o processo de participação é o caminho para o auto desenvolvimento e para o próprio reforço da cidadania indispensáveis para a autonomia e realização pessoal

É que a pobreza configura um estado de “não participação”, de “não poder” que muitas vezes arrasta um sentimento dramático de “não ser” e de estar excluído/a da comunidade a que pertence.

Por isso são sábias as palavras de Mahatma Ghandi e  desafiam todos os agentes na sua acção quotidiana “Tudo o que fizeres por mim sem mim é contra mim”.