Entrevista publicada no n° 28 do "Levain pour demain"
piece_jointe_mail.jpeg

As minorias em todo o mundo continuam impedidas, o que mostra que a experiência democrática está longe de se completar.
A afirmação é do padre jesuíta Humberto Guidotti, 75 anos, dos quais 38 vividos no Brasil entre a Amazônia e o Estado do Maranhão, no Nordeste.

Ele também afirma numa entrevista publicada no n° 28 do « Levain pour demain » :  

« […] As sociedades europeias, por exemplo, são falsas democracias porque são sociedades dos dois terços, o que significa dizer que dois terços da população chegou lá e um terço ficou atrás. Nesse tipo de democracia ganha sempre quem tem a maioria dos votos, logo os pobres - os últimos - não ganham porque terão a frente deles os dois terços.

No caso brasileiro, as minorias permanecem impedidas?

Exatamente. É o que ocorre com os quilombolas e os indígenas. Numa democracia, os índios não sobreviverão como indivíduos portadores de valores e dignidade. Serão sempre a minoria nas votações que decidem sobre aqueles que têm a tarefa de representar o povo. Algumas questões de fundo aparecem: Por que não foi feita uma legislação capaz de assegurar aos indígenas a participação efetiva nos postos de comando, no parlamento? Da forma como está, eles nunca conseguirão fechar a partida e perderão o jogo. Não se instituirão como cidadãos no País e serão arrastados para baixo na condição de minoria.

Como o senhor avalia esse caminhar do Brasil para ser um país mais sócia e economicamente mais justo?

Voltamos ao problema da formação. Precisamos entender que formação para cidadania deveria ser como formação para ecologia e, ambas, entendidas matérias obrigatórias e permanentes. Na escola do Governo Getúlio Vargas e na escola do Governo Militar existiam matérias como Educação Moral e Cívica e OSPB obrigatórias. Formação é algo necessário e sem ela não se constrói cidadania. A maioria do povo não acompanha esse processo que exige ser estimulado e fica na condição de pedinte e de dependente das autoridades.

Não adianta fazer a revolução e ela não poderia dar certo no Brasil porque a esquerda tinha a ideia na cabeça (e tinha lido Marx e outros autores importantes) mas não tinha o povo. Ninguém trabalhou com o povo. Escaparam esse núcleo do Araguaia que trabalhou um pouco essa dimensão, e o das Ligas Camponesas de Francisco Julião.

Hoje, o MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra) está fazendo formação metodicamente, fora isso não tem mais nada. Não se faz revolução só com ideias. Democracia tem que ser construída com o povo. As revoluções não deram certo.

No continente africano, a "primavera da África" não deu certo porque a democracia pretendida foi engolida pelos generais, pelos jihadistas, por parte dos mulçumanos, e o povo ficou para trás.[...]