Pobreza: fatalidade? Não ser pobre: direito ou dever?
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Prudêncio do EAPN de Beja envia-nos o seguinte texto :

2 milhões de pobres
28,3% deles desempregados
27,9% deles empregados, mas pobres na mesma
23,5% dos pobres são crianças

O retrato foi traçado pelo economista Carlos Farinha Rodrigues esta quinta-feira, no programa "A Caminho das Legislativas" da TVI 24, claro está, sobre a pobreza e sobre como travar o seu agravamento. O professor do ISEG e outros dois convidados foram mais além das estatísticas e propuseram soluções, entre elas, por exemplo, um salário máximo nacional, tal como existe também, instituído, um salário mínimo. Em Portugal, é de 505 euros.
"Deveria existir um rendimento máximo possível, um teto para o rendimento. Não estou a dizer nada que não é possível. Há países em que salário de administrador é x vezes maior do que salário mínimo praticado naquela empresa. Não estou a dizer que as pessoas não possam enriquecer, mas haver aqueles que adormecem não ricos e depois acordam super ricos e a impunidade é total..."

A sugestão foi lançada pelo presidente da Cáritas, Eugénio Fonseca. Já Farinha Rodrigues não iria tão longe, "mas acharia muito bem que a o nível das empresas a relação entre o crescimento dos salários de topo e os salários de base estivesse ligado".  

Os problemas decorrentes da pobreza, constataram os especialistas, são transversais a vários ministérios, como a educação, justiça, economia, finanças e saúde. Daí o presidente da Cáritas ter defendido a criação, pelo próximo governo, de um plano nacional para erradicação da pobreza coordenado pelo primeiro-ministro.  
 
Pobreza: fatalidade? Não ser pobre: direito ou dever?

O maior drama da pobreza é, vincou Eugénio Fonseca, "assumi-la como uma fatalidade". "Quando aquela senhora diz 'paciência, Deus quer assim', é terrível". A resignação é um grande problema no combate do fenómeno, concordou Farinha Rodrigues:
"A maior parte das pessoas aceitam. Não há frase mais assassina do que aquela que diz que sempre ouve pobres e haverá pobres e isto é uma fatalidade que se irá reproduzir eternamente"

"Não é verdade", vincou. "A pobreza, nomeadamente nas suas formas mais absolutas, é possível ser erradicada".

Já Henrique Pinto, da Associação Impossible, olha para o fenómeno por outro prisma. O dos "excessos" da sociedade e de alimentar essa forma de vida com subsídios.
"Aquilo que eu proponho enquanto cmainho é uma revolução interior (...). A pobreza é fruto da educação. Da educação à dignidade... Ser digno, não é só um direito, eu tenho do dever de ser digno. Quem vive nos excessos, o Estado taxa e não transforma subsídios e apoios sociais em emprego".

Sair da resignação terá, por isso, de começar em casa e nas escolas, defendeu.  

"Os problemas da pobreza não nascem de geração espontânea nem filhos de pais incógnitos", constatou ainda Farinha Rodrigues. O agravamento decorreu da forte dose de austeridade: "Os cortes salariais mas também os cortes nas políticas sociais foram particularmente penalizadores".

Agora que esta legislatura está a terminar, resta saber o que o próximo governo vai fazer. Portugal tem, recorde-se, cerca de 10.000.000 habitantes. 2.000.000 deles são pobres.