Queridos amigos
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Falando do artigo sobre os ciganos em Portugal que vocês enviaram : pois é, quanto mais as pessoas ficam ricas, mais medo têm de perder suas riquezas e seguranças. Isso provoca desconfiança, repressão, rejeição dos mais pobres ou dos diferentes como os ciganos (ou aqui os indígenas...). Não podemos deixar de lutar, com as armas da não-violência mas firme e corajosamente, para combater esta discriminação e continuar construindo um mundo humano, onde todos se sintam em casa e tenham seu lugar como no próprio lar.

E já que me pede para lhe contar como foram as itinerâncias, lhe conto, esperando não lhe cansar demais...

Pois é, por aqui eu tirei férias de e-mail, pois estive mês e meio itinerando no Alto Solimões (Amazonas), região onde morava até o início deste ano; agora estou em Manaus como ponto de referência.
Eu, com meu companheiro Rafa sj, também da Equipe Itinerante e ainda mais o noviço Paulo Henrique, que veio passar um mês de experiência com a gente, fizemos duas itinerâncias e algumas coisas mais nos intervalos.

De Manaus fomos até Tabatinga (fronteira com Peru e Colômbia), e logo a Islândia, pequena cidade peruana na beira do rio Javari (afluente do Solimões) perto de Benjamin Constant. Verónica, leiga marista, veio também com a gente. Lá mora a irmã Ivanilde, com quem fomos visitar umas comunidades, subindo o rio 12 horas de barco pequeno lotado de gente e uma vaca que também nos acompanhava... Nestas comunidades fazia 10 anos que um frei capuchinho tinha visitado pela última vez... Foram duas semanas convivendo, visitando, conversando sobre a vida, dificuldades e esperanças destas pessoas que aqui moram, unindo a fé e a vida. Muitas destas pessoas são descendentes do povo indígena Yagua, mas perderam a língua, só falam castelhano e não se reconhecem mais indígenas, mas os traços não negam. Ficamos consolados e edificados com o exemplo de coragem destas pessoas que, mesmo sem apoio de fora, sustentam sua esperança e tentam viver como irmãos. Dá vontade de ficar convivendo com eles uns anos...

Depois passamos uma semana em Tabatinga, cuidando uns dos outros, pois Rafa chegou  bem resfriado, Verônica com disenteria e Paulo Henrique com dor de cabeça e meio baqueado com tanto mosquito e outras pragas que tiraram muito sono (mas feliz com tanta novidade e carinho do povo)... escapamos os velhinhos Ivanilde e eu. Nesta semana em Tabatinga, participamos de algumas atividades, visitas, encontros...

Depois, fomos para São Paulo de Olivença, paróquia descendo o rio Solimões (Amazonas) 10 horas de barco maior de passageiros, para a segunda itinerância. Lá moram os jovens padres Isaías e Osvaldo, que nos acolheram como irmãos. Combinamos a visita a umas comunidades indígenas Ticunas do rio Jacurapá, onde fazia uns 20 anos ninguém visitava e agora neste último ano estão retomando o acompanhamento. Fomos Rafa, Paulo Henrique e eu. O contato, conhecimento e partilha com estas comunidades foi também uma bênção. Na maioria delas só os homens falam também português, as mulheres entendem um pouco mas não falam e as crianças nem entendem nem falam, mas deu para comunicar-se através de alguém que ia traduzindo... com as crianças brinquei à vontade sem precisar de tradutor... O companheiro Rafa ficou doente de malária, que pegou nas visitas às comunidades do rio Javari, pois há muitas pessoas contaminadas; tivemos que mandar ele para a cidade, acompanhado por Paulo Henrique, e eu continuei visitando as outras comunidades; com o tratamento, em poucos dias ficou bem bom, graças a Deus! Depois, fizemos avaliação para ver como é possível continuar acompanhando as pessoas e de que forma devemos acompanhar para não impor, respeitar a sua própria cultura e ajudar a que reforcem sua luta pela vida, pela defesa da natureza, e também eles mesmos se deixem questionar e possam crescer mais e mais em todos os sentidos, humanizando suas vidas.

Como sempre, a impressão que fica em mim é de ter recebido mais do que tenho dado.
Tudo de bom para vocês!
Um abraço grande como a distância que nos separa,

Paco.