Os ciganos estão fartos desta vida
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A queixa chegou há alguns dias à Câmara de Beja. Um munícipe dá conta de “constrangimentos” causados “por inúmeras pessoas” da comunidade cigana que habitam uma casa na travessa da Banha, em pleno centro histórico da cidade, cedida pela Junta de Freguesia de Cabeça Gorda. Tratando-se de um assunto que envolve a comunidade cigana, cabe a Prudêncio Canhoto, mediador municipal de Beja desde 2009, “averiguar”. A visita à família ficou agendada para a manhã da última terça-feira, dia em que o “Diário do Alentejo” acompanhou o mediador, que ostenta desde janeiro último o título de “Cigano do ano”, distinção atribuída no âmbito do programa Romed 2, promovido pelo Conselho da Europa e apoiado pela Comissão Europeia. “O papel do mediador é fazer a ponte entre a comunidade cigana e a câmara. Tudo o que envolve a comunidade tem de ser do meu conhecimento. Há assuntos que resolvemos sem ir ter com as pessoas, mas quando se trata de queixas primeiro tenho de falar com elas, perceber se é verdade ou não, não posso confirmar sem as ouvir”, esclarece.
Já é a segunda vez que o casal António Pipa e Maria Júlia da Encarnação é visado numa queixa apresentada à autarquia. “Se acontece alguma coisa, são sempre os ciganos”, lamenta este chefe de família, lembrando que a primeira queixa acabou “por não se confirmar”. E a segunda, acrescenta Prudêncio Canhoto, “tem uma justificação aceitável”. “Concluímos agora que o barulho foi feito durante o Natal e o Ano Novo. É do conhecimento de todos que a comunidade cigana gosta muito da festa do Natal, é quando se junta a família. Para além disso, este senhor tem dois filhos já casados e um deles estava a viver também nesta casa, com a mulher e dois filhos. Eram 10 pessoas numa casa com dois quartos e que tem problemas com infiltrações. No mês passado o filho conseguiu, dentro das suas possibilidades, arrendar uma casa também na cidade, e agora não está tão cheia”. Mesmo assim, adianta, o ideal seria uma casa de tipologia três para albergar o casal e os quatro filhos ainda menores.
As más condições habitacionais são a maior preocupação de Prudêncio Canhoto. E a situação “mais gritante” é a do bairro das Pedreiras, situado nas imediações da cidade, composto por “50 casas e onde estão mais de 300 pessoas”, diz. Quando foi construído há uma década para albergar “pessoas que viviam numas barrancas no bairro da Esperança, na zona da agora Colina do Carmo, era muito bom”. O problema, adianta, é que “não foi pensado para o futuro”. Ao longo dos anos “as casas foram ficando esgotadas”, “desadequadas”, à medida que “as famílias foram crescendo”. “O que se vê muito é o pai a viver na casa e o filho, que entretanto casou, a dormir numa caravana com a família, porque a casa torna-se pequena. Na nossa cultura casam muito cedo, depois vêm os netos e um pai nunca põe um filho fora de casa. Todos deveríamos ter um teto digno e não vivermos em gaiolas, e quando digo gaiolas refiro-me aos anexos que também ficam esgotados”, pormenoriza.
A conversa com o casal António e Maria Judite é entretanto interrompida pelo toque do telemóvel. Prudêncio atende e aponta um nome na sua agenda de capa avermelhada. O Centro de Saúde de Beja não consegue entrar em contacto com o pai de uma criança da comunidade cigana que tem uma consulta marcada para sábado. A missão do mediador “é tentar encontrar o pai”: “Isto acontece muitas vezes. Estou a resolver um problema e depois surgem outros”.

Enviado pelo EAPN de Beja